22.6.12

BOA LEITURA (4)


Um história inacabada, palavras que não foram ditas na hora certa, um telefonema.
Hoje trago mais um texto de Vicente Reis, nosso amigo do site, que está bonitão agora com novo visual, Ruim com Elas, Pior sem Elas. Confiram:

O não dito

- Alô!

- Alô, Heloísa? tudo bom?
- Tudo, quem fala?
- É o Jorge, moça! Já esqueceu de mim?
- Oi, Jorge! não esqueci, só não tinha mais seu número agendado.
- Quanto tempo, não?
- Sim! Como anda?
- Bem. Quer dizer… não sei responder isso.
- Como assim? Aconteceu alguma coisa?
- Não se preocupa, não sou portador de más notícias
- O que foi, então?
- Poxa, helô, eu sei que tem tempo que não nos falamos e eu disse que ia deixar tudo pra lá… mas lembra de quando nós estavamos juntos?
- Pô, Jorge, lembro, mas o que isso tem a ver?
- Sabe o que é, helô? Lembra de quando as coisas estavam ficando mais sérias e eu te pedi em namoro? Foi ali que a gente se afastou. Você não queria compromisso.
- Eu lembro. Não sei onde você quer chegar, mas diga!
- Eu quero te dizer o que não te disse.
- Como assim?
- Depois daquele dia, fiquei pensando no que te dizer e achei as palavras certas. Achei um jeito de dizer como me sentia. Sei que não vai mudar nada, mas eu queria pelo menos poder te dizer.
- Isso é um pouco estranho, Jorge. não sei se é boa idéia.
- Me deixa pelo menos falar.
- Bom, o que há de se fazer? Agora estou curiosa.
- Naquele momento você me disse que tinha medo de me machucar, de se machucar, que você ainda não tinha curado seus traumas.
- É verdade. Eu estava sendo sincera.
- Eu devia ter dito que nós não deveríamos medir a altura do tombo, que se pulássemos juntos, poderia acontecer o fantástico, poderia ser que não houvesse fundo, ou que criássemos asas, ou até, se houvesse chão, Deus se apiedasse de nós e amortecesse nossa queda, e não houvessem machucados… está me ouvindo?
- Claro! Continue!
- Então, continuando…e eu deveria dizer que eu nunca poderia te garantir nada disso, a única certeza que poderia te dar é que mesmo encontrando o chão duro, por mais forte que fosse o impacto, teríamos aproveitado a emoção e a maravilha da queda, e que nós conseguiríamos nos levantar, seguir andando, e mais tarde rir do tombo e a qualquer momento veríamos outro precipício onde talvez criássemos asas…enfim, é isso, hêlo!
- Nossa!
- Poxa, fiquei nervoso, o que achou?
- Uau, eu não sei o que te dizer…
- Seria diferente se eu tivesse te dito isso antes?
- Eu não sei como seria se você tivesse me dito isso naquele momento, sei que, agora, eu estou atordoada.
- Você aceitaria ser minha namorada se tivesse acontecido dessa forma?
- Olha, eu to confusa… mas, na verdade, eu acho que eu estava com medo, no fundo, queria que você tivesse me dito o que fazer. Ah! quer saber? Aceitaria sim.
- Nossa isso é fantástico! Isso me deixou feliz!
- Você realmente se sentiu assim de meu lado?
- Sim!
- Quer saber? O que acha de marcarmos alguma coisa, eu queria te ver. Parece que, no fim, aquela história ficou mesmo em aberto.
- Desculpa helô, não posso fazer isso.
- Como assim?
- É que eu vou casar em duas semanas.
- “Ôxe”, Jorge! Que loucura é essa? Você me liga, me diz um monte de coisas e agora fala que vai casar? Que maluquice é essa, rapaz?
- Eu só queria saber como teria sido, helô. Queria não ter que guardar tudo aquilo sem nunca ser dito.
- No fim, você é mesmo um idiota!
- No fim, sua opnião não mudou sobre mim, mas é bom saber que poderia ter mudado!
- Vai pro inferno, Jorge! Não vou perder tempo, vou desligar!
- Esper…
- *tu tu tu tu tu tu…*

Vicente Reis
Originalmente postado em Ruim com Elas - Veio na cabeça - O não dito

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